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Rocino Crispim Poesia

Com influência de Cruz e Sousa e admiração por Manoel de Barros, Rocino desenvolve um estilo que revela a multiplicidade de significados que as palavras podem apresentar e traz à luz um universo de imagens.

[contato: rocino@rocino.com.br]

Algumas poesias

Veja uma amostra do trabalho poético de Rocino Crispim.

Reencarnações
Eu era mato
Mataram
Eu era leve
Levaram
Eu era fogo
Afogaram
Eu era mudo
Mudaram
Eu era um calo
Calaram
Eu era neném
Eu nem era
Eu era você
Eu era vou ser
Eu era mau
Eu mal era
Eu era burro
Eu era borra
Eu era birra
Eu era berro
Eu era barro.



Avesso
Se o coração diz: para
Eu corro
Se o coração só corre
Eu paro
Não me avessa
Quem eu desconheço

Se o coração dispara
Eu corro
Se o coração socorre
Eu paro
Só me conhece
Quem me vê do avesso.



Já é
Já é tarde
Para ser cedo
Já é gol
Para ser defesa
Já é verdade
Para ser arremedo
Já é notório
Para ser surpresa

Já é agora
Para ser depois
Já é viral
Para ser segredo
Já é um só
Para ser dois
Já é amor
Para ser medo.



Loucos motivos
Locomotiva arrasta pelos trilhos
Loucos motivos vãos, ensanguentados
Que levam todos: pais e mães e filhos
Na ondulação sinistra de bailados.
Seu maquinista, quem é essa gente?
De quem o sangue que a miséria suga?
Será que a dor não quer poupar um dente
E permitir que um ente alcance fuga?

No primeiro vagão, um ser pingente
Das ilusões e sonhos pendurado.
E um pregador maldizendo a corrente
Do frio fogo do infernal pecado.

No segundo vagão, a voz da plebe
Se faz pagodes, lembra uns ais antigos
Na estranha sensação de quem recebe
Perfurações de mil punhais amigos

No terceiro vagão, dança da morte.
Tortos compassos da cruel batuta.
A lei do fraco não serve pro forte.
Um tiro se encarrega da permuta.

Há mil vagões no mundo, mil abismos.
Promiscuidades de lágrima e pus.
Macabras marchas, perversos turismos,
Pra qualquer alma jamais faltou cruz.
Mas nessa gente há loucos motivos,
Locomotivas, a louca alegria:
À luz da dor podem ver que estão vivos –
Melhor que ter a morte indolor, fria.



A mão da morte
Não toques em mim,
Maldita mão crepusculosamente amarga.
Larga, larga o sonho doce e infantil.
Corto-te os dedos, se de mim te aproximas.
Ainda por cima,
Não vês que jovens são meus pensamentos?

Sei que de ti dependerão vindouras vidas
E o movimento infindo desse universo.
Cruel inteligência de um ser talvez perverso:
Apagar a vida para poder continuá-la.
Vai, mas não resvalas em mim,
Escuridão fria de noites abissais.
Esquece que existo,
Para que eu exista muito mais.
Tu tens a faca de cortar futuros,
Escurecendo os ermos mais escuros.
A luminosidade de um olhar perdido
Não imagina a voz
Que lhe acordará o ouvido.
Acordará para o sono sombrio e tenebroso.
O intelectual, o asno, o negro, o branco não fogem: é imperioso.
Tento cortar caminhos, mas em quaisquer deles tu estás.
Esquece que existo, esquece,
Para que eu exista muito mais.
Esconde-te sob a calma paz de olhos puros
Para exibir o brilho insosso de tua faca:
A afiada faca de seifar futuros.



Óbvia
Nem se milhões de eus se explodirem
(pois a fúria de um amor sem fim se ergue)
Tu te abalarás esses neurônios,
Senhora Mãe do mais frio ice-berg?
Por que esperas a hora certa? Vai-te.
Sem beijos de despedida puros, diets.
Sei que os teus segredos são mentiras:
Um livro fechado, mas com páginas em branco.
Enerva-me essa lucidez
De quem jamais errou,
Contudo nada fez.
Tu és a calma de uma vida sóbria,
Para que eu me irrite.
Tens a rotina e as curvas óbvias
De Miami City.



O ovo oco
O ovo oco é ovo?
O oval
Não faz ovo
O oco
Não faz do oco
O ovo.



Talvez
Talvez o vento possa acreditar
Que é certa sua direção
Talvez meus pés acreditem no chão
Minha visão, no que já vi
E minhas lembranças
No que um dia cantei
Talvez eu possa até pensar
Que você não é ilusão

O seu rosto paira perto
Quando estendo os braços
Foge pro incerto
Eu, poeta, escrevo
Mas não acredite em mim
Quando grito sim, é não
O não é sim
Deve haver uma certeza presa no deserto
Longe de uma letra de canção
Que um poeta fez
Vai fugir e se esconder
Pra não cair nos braços do talvez.



Palhaço
É tolo quem pensa que sou feliz
Ao desfilar na luz do picadeiro
Não sabe que a tristeza é a matriz
A prima-dona do meu ato inteiro

Atrás da tinta que me esconde o rosto
Habita a sina de um viver amargo
E tenho obrigação, pelo meu posto
De pôr em outrem um sorriso largo

É tolo quem pensa que sou feliz
Sou operário que transforma o aço
Gero alegrias que o salário diz
Não pertencerem ao pobre palhaço.



Acordo coletivo
Vamos fazer um trato
Ninguém muda ninguém
Admitamos carências
Os excessos também

Respeite meu cabelo
Minha cor, meu nariz
Não existe modelo
E ninguém é juiz

Vamos fazer um trato
Sem medo, sem trapaça
Prevaleça a verdade
No peito, não na raça

Não ser padronizado
Num molde coativo
É permitir brilhar
A cor do coletivo.



Civil preto
O policial civil se viu
Mas se viu tinha que entender
Que estamos no mesmo barco
No mesmo arco da Lapa
Farinha do mesmo saco
Nós não seremos a capa
A capa boa, amigo
Somos face é do perigo
Pra gente virar mocinho
Tem que mudar
Tem que mudar destino e caminho
O policial preto se viu civil
E civil pôde entender
Que estamos no mesmo fato
No mesmo estampido do tapa
Mil corpos no mesmo buraco
Nós não seremos a capa.



Pong-ping
Uma cor: Mandela
Uma pessoa: preta
Um lugar: lá
Uma saudade: aqui
Uma solidão: eu
Um encontro: nós
Uma dieta: amanhã
Um momento: agora
Um medo: certeza
Uma palavra: talvez
Um supérfluo: coisa
Um tesouro: gente
Uma oração: verbo
Uma frase: silêncio
Uma certeza: noite
Uma esperança: manhã.

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